Devagar


Aos poucos vou surgindo. Devagar, para não perturbar o sossego que ficou no meu lugar. Revigorada? Talvez! Sinto-me bem. No fundo é o que conta, certo? O descanso das férias por vezes é bastante relativo. Quebra-se a rotina e criam-se novos vícios. É preciso tempo para aprender tudo outra vez. Para ocupar o espaço e obedecer aos dias. Por isso aqui estou - timidamente - sem muito para dizer, mas com vontade de ficar. Aos poucos vou surgindo. Devagar, para absorver todo o carinho que me deixaram, todas as palavras que me disseram. A todos muito obrigado!

Ainda Não


Ainda não
Não há dinheiro para partir de vez
Não há espaço de mais para ficar
Ainda não se pode abrir uma veia
E morrer antes de alguém chegar

Ainda não
Não há uma flor na boca para os poetas
Que estão aqui de passagem
E outra escarlate na alma
Para os postos à margem

(António José Forte)

Vou de férias. Vejo-vos em Setembro. Até lá...

Palavras que Tendemos em Ignorar


 "Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento. Agradeçam. Não deixem nada por dizer. Nada por fazer." 

António Feio
1954 - 2010

Cansa Sentir


Cansa sentir quando se pensa
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei-de ser
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer

Tudo isto me parece tudo
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim

Tudo isto me parece tudo
Mas noite, frio, negror sem fim
Mundo mudo, silêncio mudo
Ah, nada é isto, nada é assim!

(Fernando Pessoa)

O Espantalho


Dois paus em cruz espetados no chão, as roupas tão velhas e sujas de terra que dir-se-iam roubadas da jazida de algum defunto, a caraça medonha com o chapéu roto e desabado em cima, tudo isto cheio a miolo de enxergão, e eis a divindade protectora com que o campónio espanta das árvores fruteiras, da seara e da vinha, a praga odiada do pássaro ratoneiro - o pardal atrevido e velhaco, o melro brejeiro que faz o ninho entre os silvados, o marantéu guloso, e toda a outra casta de aves, que sem respeito nem cerimónia se assenta à mesa do lavrador e devora mais que os filhos. Cada grão de trigo tem para o homem que trabalha a terra, o valor de uma bagada de suor ou de uma lágrima, cada fruto é o regalo dos seus olhos e a vinha o sangue quente do seu corpo de mártir. E quer a natureza que o primeiro milho seja dos pardais. Malditos, os ladrões do seu trabalho!

No meio dos campos, levantam-se estes monstros com feição de gente, grotescos e horrendos, apreensivamente ameaçadores na sua imobilidade de ídolos, de que só um ou outro pássaro mais matreiro ousa rir e se atreve a desfeitear, com escárnio e heresias, tão alto poder divino. Mas isso é bicho afeito à astúcia e ronha dos humanos, que os outros não se afoitam. Alguns destes espantalhos são a viva imagem da fantasia, ao mesmo tempo desesperada e risonha, do homem seu criador. São a caricatura do medo, no grotesco das atitudes, na brutalidade e rudeza dos traços, em meio dos albofres, das searas douradas, da vinha dadivosa e dos ricos e perfumados pomares. A inocência das aves, e nisso é que está por ventura toda a graça, não é no fundo maior que a candura dos homens, que, na sua pequenez e infelicidade, também sentem temor dos mesmos diabos infernais e grotescos espantalhos dos humanos apetites, símbolo de maldade e castigo, que pouco diferem dos demónios que assustam a desprevenida ave do céu.

Manuel Mendes em 'Pedro - Romance de um Vagabundo'.

Estou a reler este livro - comprei-o quando tinha 13 anos numa banca de rua - e escolhi este pequeno trecho, não apenas porque gostei dele, mas porque me parece que todos temos um espantalho dentro de nós. Um monstro criado à nossa imagem e semelhança, numa tentativa de assustar o que mais tememos - a nossa pequenez e infelicidade.

Se...


Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Percurso de Volta


Sempre fui ensinada a não desejar mais do que posso ter - talvez porque quem me ensinou, não tinha muito para me dar. Não sei. Só sei que nunca ambicionei o impossível ou a felicidade suprema, reconhecendo sempre as pequenas benesses e dádivas da vida, com a plena consciência de que nada é eterno. Porém, tudo muda quando somos confrontados com a perda física. Com a ausência da presença. Nasci, cresci e vivi, com as pessoas que me são mais queridas junto de mim, e mesmo aquelas que o destino por vezes teimava em levar para longe, também essas permaneciam sempre e igualmente presentes. Quando se perde uma parte tão importante de nós, como eu perdi recentemente, o mundo deixa de fazer sentido e as memórias que ficam - por muito boas que sejam - não conseguem preencher o vazio deixado por essa perda. Por vezes são como pesadelos, tal é a dor que sentimos quando se recordam. Mas essa perda traz-nos outra consciência - a de que existe a possibilidade de a dor ser ainda maior. A dor de voltarmos a perder alguém querido.

Embora nunca tenha sido pessoa de sofrer por antecipação, durante algum tempo senti essa (estranha e inquietante) necessidade. De sofrer e chorar por quem ainda não perdi, como se com isso me quisesse preparar para a dor que ainda não senti. Remeti-me ao silêncio e à introspecção. Uns dias vazia, outros preenchida. Uns dias inspirada, outros apenas apática. Acabei por me perder num caminho que não conhecia, assim como nos motivos que me levaram a escolhê-lo. Um caminho tão espinhoso, que me obrigou a parar e a reflectir sobre a continuação do seu percurso. A solução era continuar e perder-me de vez ou fazer o percurso inverso e reencontrar-me algures no caminho que ficou para trás. Escolhi  fazer o percurso de volta. De volta ao privilégio da companhia e da presença das pessoas que me rodeiam. De volta ao aceitar de novo que tudo pode mudar e à plena consciência de que nada é eterno. Um percurso de volta a mim.

A verdade está em nós - alguém disse - está no que nos rodeia. Nas pessoas, nos gestos, nas palavras. Ou simplesmente a verdade é tão somente a ilusão de que a verdade existe. Não sei. Pedi-vos tempo, espaço, compreensão. Deram-me carinho, apreço e nunca me deixaram só. Deram-me palavras de alento, de incentivo e de força. Palavras que bebi em silêncio, uma por uma. Palavras que me reconfortaram - algumas fizeram-me sorrir, outras fizeram-me chorar sorrindo. Em cada letra um reflexo, em cada reflexo um pouco de mim. Um pouco daquilo que sou. Daquilo que sei que sou.

E eu sou aquela pessoa que em delicada postura desce a rua, que ouve a música de fundo e sente a brisa suave, que é cúmplice da ave, na vontade madura de abraçar o mundo. Aquela para quem o copo está sempre meio cheio e nunca meio vazio. Aquela que acha que tudo tem um lado positivo, mesmo quando não parece.  Aquela que se reserva sempre o direito de sofrer as desilusões, dando-lhes apenas a importância que elas merecem. Assim sou eu. Assim quero continuar a ser. Obrigada a todos por não me deixarem esquecer disso e por me ajudarem a percorrer o caminho de volta. A verdade pode estar em todo o lado e em lado nenhum em simultâneo, mas há uma verdade que é incontestável - a minha verdade sou eu que a faço. Muito obrigada!

A Busca da Verdade


"Refugia-te na Arte" - diz-me Alguém - "Eleva-te num voo espiritual, esquece o teu amor, ri do teu mal, olhando-te a ti própria com desdém. Só é grande e perfeito, o que nos vem do que em nós é Divino e imortal! Cega de luz e tonta de ideal, busca em ti a verdade e em mais ninguém!"
Florbela Espanca

É o que farei. Obrigada, Florbela.

Saramago (1922 - 2010)


Sempre que morre um poeta
O mundo fica mais pobre
Sempre que se recorda um poeta
A alma fica mais nobre

Acrescento ainda, que mesmo não sendo grande conhecedora da obra deixada por José Saramago, não posso deixar de prestar a minha homenagem a um homem que sempre defendeu as suas convicções até ao fim e nunca abdicou dos seus ideais. Uma virtude que poucos possuem. Uma coragem que poucos admiram.

Helga

Janelas


 
Tenho quarenta janelas nas paredes do meu quarto. Sem vidros nem bambinelas. Posso ver através delas o mundo em que me reparto. Por uma entra a luz do Sol, por outra a luz do luar, por outra a luz das estrelas que andam no céu a rolar. Por esta entra a Via Láctea como um vapor de algodão, por aquela a luz dos homens, pela outra a escuridão...

António Gedeão

O Amor

 O AMOR

"Ao Amor e à Vida! Para que não haja mais amargura e as pessoas se tornem mais doces. Ao Amor! Para que não deixe ninguém magoar o Planeta, para que proteja as montanhas e tome conta dos bichos, para que se ocupe das estrelas, da solidão e dos velhos. Ao Amor! Para que seja infinito e possa durar para sempre. Ao Amor! Para que seja o maior desejo do mundo!"

Do livro infantil "PEDE UM DESEJO" de Inês de Barros Baptista

Manjericos de Santo António


Manjericos de Santo António
Versos que a vida leva e trás
Só queria que no meu
O tempo pudesse voltar atrás

Aos meus anos de menina e moça
Em que Alfama era luz e cor
A noite era criança
E as promessas eram de amor

Nos bailes e arraiais
Arranjar noivo não era para mim
Só queria ser livre e jovem
E continuar a dançar assim

Subir ao Castelo era da praxe
Com os amigos reunidos
Todos os becos eram paragens
Até os mais esquecidos
 
Manjericos de Santo António
Versos que a vida leva e trás
Só queria que no meu
O tempo pudesse voltar atrás

Helga

10 de Junho


Que vençais no Oriente tantos Reis,
Que de novo nos deis da Índia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;

Que vencidas tenhais da morte as leis,

E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.

Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,

E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;

O que vos dá mais fama inda no mundo,

É vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratidões, tão grande inveja. 

 Luís Vaz de Camões

Se o Meu Corpo Fosse Teu

im@gem: olhares

Se o meu corpo fosse teu
Talvez pudesses sentir
O meu cansaço, a minha leveza
A cor da alegria e o sabor da tristeza
 
Se o meu corpo fosse teu
Talvez pudesses compreender
O silêncio da saudade, a dor da ausência
A brisa da paz e o peso da demência

Se o meu corpo fosse teu
Talvez pudesses entender
Como é ser eu
Como é estar nua, ainda que vestida 
Como é estar de pé, ainda que caída


Helga

Estava Vazio (para a Fábrica de Letras)

 Imagem: HELGA

Velho e sem utilidade, foi posto no lixo. Levou com ele os momentos de descanso depois de um dia de cansaço. O silêncio da hora da sesta no pico do calor do Verão. A vida dos braços que nele repousaram e da cabeça que pendeu para adormecer ao serão. As histórias contadas à lareira numa noite de Inverno. Agora estava vazio, velho e sem utilidade. Foi posto no lixo e levou com ele as memórias e a saudade.

No âmbito do desafio de Junho para a Fábrica de Letras sobre o tema "Estava Vazio"

A Coragem

 A CORAGEM

"A Coragem vem do fundo do corpo. É uma luz em forma de bola cor-de-laranja, que gira e que empurra os medos para fora do quarto, dos cantos e dos olhos. É espessa e brilhante mesmo no escuro, parece magia. Podemos senti-la nas mãos, na cabeça, no peito. Serve para lutar contra os monstros e para defender os amigos."

Do livro infantil "PEDE UM DESEJO" de Inês de Barros Baptista

Alentejo do Meu Encanto


Memórias de cor e de pranto
Searas de calma
 Que me confortam a alma


Alentejo, onde o tempo é tudo
E o coração se rende
Ao silêncio mudo


Alentejo, momentos de paz
Lugares vazios
Que o tempo deixou para trás


Alentejo, solidão que apetece
Saudade infinita
De um passado que não se esquece


Alentejo, Coimbra da minha vida
Que tem sempre mais encanto
Na hora da despedida


Texto e Imagens: HELGA

As Rosas

Imagem: HELGA

Rosas que desabrochais
Como os primeiros amores
Aos suaves resplendores matinais
Em vão ostentais, em vão
A vossa graça suprema
De pouco vale; é o dilema da ilusão

Em vão encheis de aroma o ar da tarde
Em vão abris o seio húmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos
Em vão ornais a fronte à meiga Virgem
Em vão, como penhor de puro afecto

Como um elo das almas
Passais do seio amante ao seio amante
Lá bate a hora infausta em que é força morrer
As folhas lindas perdem o viço da primeira manhã
As graças e o perfume

Rosas que sois então?
Restos perdidos
Folhas mortas que o tempo esquece e espalha
Brisa de Inverno ou mão indiferente

Tal é o vosso destino, ó filhas da natureza
Em que vos pesa a beleza, padeceis
Mas não, se a mão de um poeta
Vos cultivar agora, ó rosas
Mais vivas e mais jubilosas, floresceis

Texto: MACHADO DE ASSIS


As Cinco Fases da Dor (reposição)

Este texto é uma reposição, e se já tinha pensado em publicá-lo de novo aqui, agora faz-me todo o sentido fazê-lo.


De acordo com Elisabeth Klüber-Ross, quando sofremos uma perda catastrófica, passamos por cinco fases diferentes de dor. Começamos pela negação. A perda é tão impensável, que achamos que não pode ser verdade. Zangamo-nos com todos. Zangamo-nos connosco mesmos. E depois negociamos o que sentimos. Imploramos. Pedimos. Oferecemos tudo o que temos. Oferecemos a nossa alma em troca de apenas mais um dia. Quando a negociação falha e é difícil continuarmos zangados, entramos em depressão. Em desespero. Até que aceitamos que fizemos tudo o que podíamos. E deixamos ir. Deixamos ir e passamos à aceitação.

A dor pode ser algo que todos temos em comum, mas é diferente em cada um de nós. Não é apenas a morte que temos que chorar. É a vida! A perda! A mudança! E quando nos perguntamos porque tem de ser tão mau, porque tem de doer tanto, é quando percebemos que tudo pode mudar de repente. É assim que nos mantemos vivos. Quando dói tanto que não conseguimos respirar. É assim que sobrevivemos e continuamos.

A dor chega na altura própria para cada pessoa. A seu modo. E tudo o que podemos fazer, é tentar ser honestos. Mas o que é mesmo doloroso, a pior parte da dor, é que não conseguimos controlá-la. Por isso o melhor a fazer, é permitirmos senti-la quando chega e deixá-la partir quando conseguimos. Mas ás vezes quando pensamos que já a ultrapassámos, ela começa de novo. E de cada vez que começa... deixa-nos de rastos... sem fôlego.

Há cinco fases de dor. São diferentes em todos nós, mas são sempre cinco. Negação. Ira. Negociação. Depressão. Aceitação.

 Anatomia de Grey - série 6, episódios 1 e 2 - 'O Luto' - monólogo de introdução