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O Prazer e o Tédio

" Há quanto tempo, Aline, uma nuvem não é para ti senão uma nuvem... " 

Não precisei de ler mais, para pegar neste livro e trazê-lo para casa. Acabei de o ler precisamente hoje, um mês e qualquer coisa depois e após uns dias de maior interesse do que outros. Após achar também, que o autor não precisava de remexer tão a fundo no passado da personagem, para contar a sua história. Ao terminar, vi o quanto estava errada, pois como diz Maria Teresa (para mim, ela a personagem principal deste romance) "... uma história não tem princípio nem fim. A história de uma única pessoa é já a história do mundo, porque uma única pessoa é já o mundo todo."


Escolher o que mais gostei seria transcrever quase tudo o que li, por isso entre as passagens que mais me disseram, escolhi estas duas, talvez porque tal como Aline, também eu nasci no campo e também eu fui confrontada com a ruína da casa onde cresci, tendo igualmente sentido a  mesma estranha sensação de nunca ter vivido naquele lugar. 'O Prazer e o Tédio', um livro tão fascinante quanto inquietante que recomendo vivamente.

"Aline tem nas mãos uma fotografia antiga da casa. Aline viveu dezasseis anos nesta casa afastada do mundo, longe do asfalto, erguida entre a linha de festo e um ligeiro talvegue. A casa é hoje uma ruína. (...) Olha a fotografia. E descobre, num súbito sobressalto, que a imagem da casa e a memória que tinha da casa são completamente diferentes. Aline olha a fotografia com a estranha sensação de que nunca viveu neste lugar. Como se o tempo tivesse apagado os anos da infância e da adolescência ou como se a infância e a adolescência não tivessem feito parte da sua vida."


"Para onde vão os dias que passam? Que lugar os acolhe ou suspende nos seus múltiplos fios? O que nos pertence ou se perde irremediavelmente no tempo que já não é? Onde ficam as nuvens pretéritas e o vento e a chuva e as corridas das crianças a descer e a subir os atalhos das florestas? O que une ou separa os acontecimentos do passado e a memória que guardamos deles? E se não houvesse mais que o tempo presente? E se a vida toda não fosse senão este momento irrepetível de nos sentirmos vivos em melancolia, intemporalidade e tumulto?"

"E Luísa imagina por instantes que o passado e o presente se misturam até que tudo seja o que já foi."