É Urgente Sermos Mais HUMANOS


Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos primários. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. Não é auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biológica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condição. É lendo Platão. E construindo pontes suspensas. É tendo insónias. É desenvolvendo paranóias, conceitos filosóficos, poemas, desequilíbrios neuroquímicos insanáveis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas políticos, receitas de bacalhau, pormenores. 

É engraçado como cada época se foi considerando «de charneira» ao longo da história. A pretensão de se ser definitivo, a arrogância de ser «o último», a vaidade de se ser futuro é, há milénios, a mesmíssima cantiga. Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato. 

A única atitude verdadeiramente civilizada é a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experiência, o amor desinteressado, a ansiedade artística, a sensação de vazio, a fé em Deus, o sentimento de impotência, o sentir-mo-nos pequeninos, a confissão da ignorância, o susto da solidão, a esperança nos outros, o respeito pelo tempo e a bênção que é uma pessoa sentir-se perdida e poder andar às aranhas, à procura daquela ideia, daquela casa, daquela pessoa que já sabe de antemão que nunca há-de encontrar. O progresso é uma parvoíce. Pelo menos enquanto continuarmos a ser os animais que somos. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'

4 comentários:

maria teresa disse...

É urgentíssimo, é para ontem!
Abracinho meu!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não me revejo nesse texto. O MEC escreve com a angústia do burguês que é apanhado desprevenido com o caminho que os detentores do poder estão a escolher... Para mim, a natureza humana é uma tanga... e só desacredita no Homem quem nada faz por uma humanidade distinta desta.

É ele o animal, eu não me sinto tal!!

Helga disse...

Rogério, em primeiro lugar - obrigado por sempre ter uma palavra a dizer nos meus post's. A troca de opiniões é saudável.

No que respeita ao texto publicado, pessoalmente não gosto do MEC e nem tão pouco concordo com todas as atitudes verdadeiramente civilizadas enumeradas, no mesmo, mas não quis adulterar a ideia. Concordo sim com o conceito geral de falta de humanidade nas pessoas e com a falta do sonho, da meninice, do disparate saudável. Tornámo-nos demasiado sérios e egocêntricos. É com essa ideia que concordo.

Um grande abraço :)

Pedrasnuas disse...

E eu também concordo com o teu comentário "o conceito geral de falta de humanidade nas pessoas e com a falta do sonho, da meninice, do disparate saudável. Tornámo-nos demasiado sérios e egocêntricos."

Um grande beijinho